Entrevista a Edmundo Pedro, ex-dirigente do PS.Um homem com biografia. E ainda com "muita alegria de viver", como confessa ao DN. Edmundo Pedro lança às 18.30 de hoje, na Torre do Tombo, o primeiro volume das suas Memórias: 550 páginas de relato minucioso de combate à ditadura salazarista. Este volume termina em 1945, mas já está a redigir o segundo. Directamente no computador. O velho resistente continua no activo: a reforma pode esperar..A publicação destas Memórias era um projecto antigo?.Era um projecto antigo, mas que fui sempre adiando por considerar que não valia a pena. Cheguei até a escrever umas centenas de páginas, há muitos anos. Tenho-as aí, com as folhas já amarelas... Quando comecei a escrever este livro nem sequer consultei essas páginas..Ouviu vários pedidos para escrever?.Sim. Diversas pessoas insistiram comigo para deixar o meu testemunho sobre os acontecimentos de que fui protagonista nestas décadas..Diz-se que os portugueses têm memória curta. Concorda?.Sim. Lamentavelmente, temos uma memória demasiado curta. É o caso do Tarrafal [na ilha de Santiago, em Cabo Verde]: as autoridades portuguesas deviam fazer tudo quanto fosse possível para a recuperação daquele local com o objectivo de avivar a memória colectiva para aquele período da ditadura. Já fiz contactos nesse sentido, mas dizem-me que isso pode ferir susceptibilidades em Cabo Verde, por questões de soberania. Isso é um falso problema: não há susceptibilidade nenhuma! Em toda a Europa os campos de concentração são objecto de preservação. Em Portugal não se dá importância nenhuma a isso, o que é um sinal do nosso subdesenvolvimento..Foi preso pela primeira vez aos 15 anos. Por que motivo?.Fui preso na véspera do 18 de Janeiro [de 1934, data de um golpe falhado contra Salazar], em que eu era o elemento de ligação entre a direcção do Partido Comunista e [o quartel de] Caçadores 7..Já era comunista aos 15 anos?!.Tornei-me militante da Juventude Comunista aos 13 anos, altura em que entrei no Arsenal da Marinha. .Porque aderiu ao comunismo?.O meio social e político em que vivia. O Arsenal era um viveiro de quadros operários comunistas, nomeadamente Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, e Francisco Paula de Oliveira, que era o secretário-geral da Juventude Comunista. .Militou quantos anos no PCP?.Cerca de uma década. Saí quando estava no Tarrafal: tentei evadir-me do campo sem conhecimento da organização partidária na cadeia, o que me levou a ser suspenso. Quando mais tarde quiseram reintegrar-me, quem não quis fui eu..Chegou a acreditar em Estaline?.Fui estalinista. Acreditei completamente em Estaline. Estava convencido de que Estaline era o guardião do grande projecto de emancipação dos povos. .Conheceu bem Bento Gonçalves, morto no Tarrafal em 1942. Que memória guarda dele?.Guardo uma memória muito positiva. Pela sua simplicidade, pelo seu fabuloso saber, foi alguém que me marcou imenso. Não era nada inflexível, nem sectário..E Álvaro Cunhal?.O Cunhal partilhou comigo a direcção da Juventude Comunista [em 1935]. Tivemos, na altura, uma relação próxima. Mas ele depois foi para o estrangeiro e eu fui preso. Só voltei a vê-lo depois do 25 de Abril. Encontrámo-nos no congresso da Frelimo, em Moçambique - ele liderava a delegação do PCP, eu a do PS. Voltámos a falar, por iniciativa dele. O tom foi muito cordial, mas tratou-se de uma conversa de surdos: as divergências políticas eram óbvias. Não voltámos a conversar..Mas como era ele?.Era simpático, muito simpático. Sabia cativar quando queria. Mas também era capaz de ser duro. O general Spínola confessou-me em 1975 que quando o Cunhal era ministro, um ano antes, já evitava falar com ele porque tinha um olhar de cobra, envolvente, capaz de hipnotizar..De todos os políticos que conheceu, quem mais o impressionou?.Talvez Humberto Delgado, pelo seu desassombro e coragem física..E dos que conheceu após o 25 de Abril de 1974?.Necessariamente, Mário Soares. Sobretudo devido à acção dele evitou-se uma guerra civil e a implantação em Portugal de um regime decalcado do antigo Leste europeu.